31/03/09
Expectativas
Esta foi, objectivamente, a primeira conspiração unanimista da nossa jovem democracia.
Dela foi vítima uma alta figura do Estado, cujo nome por decoro e descrição se omite, embora todos saibam quem é.
Diz-se que o Procurador - nosso Garzón da Trafaria, - irá falar ao país para pôr tudo em limpos pratos
Estou certo que assim não será. A Trafaria pesa muito.
Vórtice
Esta madrugada que me cansa
Quando vigilando penso que nem dormir consigo.
Porque dormir vai sendo prenda rara,
mesmo inóspita no meio de tanta solidez sórdida,
de memória ao vento enevoada,
enxovalhada mesmo pelo zumbir,
que começa na nevralgia deste nocturno
e acaba, enfim, no vórtice seco da secura de mim.
A profissão dominante
à quinta-feira véspera do jornal
nadando em papel como num aquário
ejectando a minha bolha pontual
de prosa tirada do receituário
onde aprendi o cozido nacional
do boçal fingido o lapidário
- fora algum deslize gramatical-
receio que me chamem extraordinário
quando esta é uma prática trivial
roçando mesmo o parasitário
meu Deus dá-me a tua ajuda semanal
Farnando Assis Pacheco
04/02/09
30/11/08
O sobrevivente
Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.
Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)
Carlos Drummond de Andrade (link)
29/11/08
28/11/08
La salvación
Ésta es una historia de tiempos y de reinos pretéritos. El escultor paseaba con el tirano por los jardines del palacio. Más allá del laberinto para los extranjeros ilustres, en el extremo de la alameda de los filósofos decapitados, el escultor presentó su última obra: una náyade que era una fuente. Mientras abundaba en explicaciones técnicas y disfrutaba de la embriaguez del triunfo, el artista advirtió en el hermoso rostro de su protector una sombra amenazadora. Comprendió la causa. “¿Cómo un ser tan ínfimo” -sin duda estaba pensando el tirano- “es capaz de lo que yo, pastor de pueblos, soy incapaz?” Entonces un pájaro, que bebía en la fuente, huyó alborozado por el aire y el escultor discurrió la idea que lo salvaría. “Por humildes que sean” -dijo indicando al pájaro- “hay que reconocer que vuelan mejor que nosotros”.
Adolfo Bioy Casares LINK
25/11/08
Acontece
Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
Pablo Neruda (Últimos Poemas)
19/11/08
Manuela de Esparta

Como estou comovido!
Esta senhora deve passar à história da democracia portuguesa: diz o que não quer e quer o que não diz.
Por Portugal, no pasará!
12/10/08
O fado
Há países onde é difícil viver. Noutros, não é fácil conviver. Noutros ainda, NADA sai bem.
VPV vive num país do 3º grupo. Feito à sua medida, para seu prazer e desgraça dos outros.
Mas com a desgraça dos outros pode ele bem: que seria de VPV se alguma coisa corresse bem no seu país?
11/10/08
Timing
Há gajos à rasca com a crise.
Diz-se que os mais aflitos são os mais ricos.
É que terão de fazer uma pausa.
09/10/08
O monólogo parlamentar
Eu, que sempre gostei de ver oposições parlamentares aguerridas, estou hoje bem triste, recalcando sem efeito visível a vergonha que ontem passei durante o debate parlamentar (mais propriamente chamado o passeio de Sócrates).
Realmente, tivemos oposição no seu pior: sem chama, sem imaginação, sem conteúdo. Rangel (onde terá Manuela ido descobrir este génio?) e Louçã esmeraram-se na desgraça paroquial.
Garanto que a sra. Palin é bem melhor.
06/10/08
Cuidados
Quando hoje me levantei, lembrei-me que ontem fora dia 5.
E voltei a comemorar.
Entretanto, procurando dar seguimento aos preceitos da caridade cristã, tive um pensamento de cuidado filial pela líder do PSD. Bem merece!
29/09/08
O Manelismo
Começo finalmente a perceber o Manelismo.
Trata-se - depois do tabu do silêncio - de fazer microoposição: alinham-se declarações sobre temas menores, misturam-se algumas posições solenes sobre temas fracturantes que, por serem "matéria de consciência", permitem lavar as mãos na liberdade de voto, simulacro de democracia alaranjada e arejada. Junta-se a esta salada de frutas um sempre-recauchutado Santana (que dá a D. Manuela um cheirinho de calculismo pragmático, tempero sempre conveniente numa salada que se preza).
Afinal é tudo simples.
Menos ganhar eleições.
The show must go on
A crise financeira veio para ficar, com as carpideiras do costume e as desculpas de quem tem peso na consciência.
O capitalismo não acabou: apenas está mostrando que não pode passar - sobretudo ele! - sem o socorro do Estado para lhe subsidiar as incompetências e os golpes - financiando-lhe, generosamente, os prejuízos.
Quando o engenho dos "novos produtos financeiros" começa a soçobrar, o sistema dá nisto: socializam~se as percas para continuar a capitalizar-se nas várias roletas do Casino.
Mas haveria outro remédio?
Haveria: mas era necessário subordinar o poder económico ao político. Coisa que aos próprios políticos não interessa: quem lhes pagaria os desvarios, as comissões e a domesticação da grande mídia?
Nada voltará a ser como era. Para que tudo continue a ser como era.
Há só que mudar o esquema e alguns dos seus arquitectos.
The show must go on.



